10 de dezembro de 2009

Romeu e Julieta

Ela ama como come goiabada com queijo. Quando sobra um pouco mais de alegria no prato, ela coloca um bocado de tristeza. E se resta um pedaço de tristeza, ela completa com alegria. Ela busca o equilíbrio perfeito entre o salgado e o doce, mas nunca encontra a medida exata... Que bom. A sobremesa nunca finda.

8 de dezembro de 2009

Suponho que a minha certeza

Tenha a causa da própria dúvida:
A mesma força que me alcança
Se me afaga, me aflige
Se me domina, me amansa
É dual o que me resguarda
Choro à minha confiança
Beijo o ombro da incerteza
O que me resta é esperança
De não precisar jamais
Supor qual é a dança

Estrofe I

Meu bem me esperou
Na outra calçada
Levou uma flor
Para dar à amada
Vestiu-se de branco
E brando, sorriu

Mas foi outra menina
Que na esquina o viu

(continua...)

28 de novembro de 2009

O exercício da esperança

Hoje, viver é difícil. Tudo parece impossível, cansativo, árduo. É custoso dar algum sorriso otimista quando vemos pelas ruas, pelos dias, pela televisão, quando sentimos na pele, tanto desalento, tanto infortúnio, tanta desventura. A realidade é uma adversidade, na verdade.
Mas se é alguma esperança o que nos põe em movimento, o que nos faz seguir sempre em frente, o que oferece dignidade às nossas causas, o desafio da vida se constitui como tal: diminuir as razões práticas para a desesperança que nos imobiliza.
É a esperança que praticamos.

22 de novembro de 2009

Você existe no meu futuro

Você existe no meu travesseiro. Nas minhas xícaras, em cada porta, sombra, em toda frase que eu leio. Nos meus dedos, no meu cheiro, nos meus gostos, nas dobras da minha roupa. Você está nos meus medos, nos meus sonhos e pesadelos. Nas novidades e numa história que se tem feito. Se falo, é desejando falar de você. Se meu pensamento fica um pouco mais vazio durante o dia, eu me preencho de você. E eu penso muito na sua existência. Me ocupo planejando a nossa viagem, o nosso caminho, o nosso envelhecimento. Você existe no meu futuro. Você está na minha vida de uma forma tão plena que se deixasse de existir eu também deixaria.

15 de novembro de 2009

Fulano

Um dia eu fiquei completamente desconcertada quando uma pessoa na rua me olhou no fundo dos olhos. A razão pela qual um acontecimento tão raso me tocou tão intensamente era a que eu nunca havia retribuído um olhar profundo, de curiosidade sobre alguém que eu desconheço. Como se minha alma tivesse sido violada, fiquei totalmente esvaziada de mim mesma, quando percebi que eu também era uma estranha ao olhar alheio. Senti um desespero exponencial ao me dar conta da minha insignificância, e ao mesmo tempo, um anseio desmedido de saber sobre essas pessoas estranhas, o que elas pensam, sentem, quem são. Por vezes eu querida sair do meu próprio corpo e poder me entranhar um pouco sob a pele de cada sujeito que circula na face da Terra. Isso explica por que às vezes eu tenho um desejo muito excêntrico de conversar com estranhos.

11 de novembro de 2009

Sobre a reciprocidade

Eu sempre me pergunto se o lado que eu vejo da lua daqui é a mesma saudade do lado daí... Mas já não é, pois o que é de outro lado é um distinto que não é o mesmo. É o que vem na direção contrária a da minha ida.

7 de novembro de 2009

Tento


Risco, rabisco e arrisco
Mas pelo menos, tento

Se lá fora está nublado
Faz dias de sol, por dentro

(aqui fora do lado de dentro)

3 de novembro de 2009

Movimento

Não pretendo estar de passagem. Espero ser presente e sempre recente. Mas se for para vir e ir, quero partir com a esperança de que a minha passagem, ou minha breve estadia, foi marcante. Com a certeza de que mesmo na minha ausência, minha existência faz-se presença viva a ser lembrada. O movimento não é o da passagem. É o da lembrança que vira ação na vida.

30 de outubro de 2009

Six memos for the next millennium

Ítalo Calvino, em seu livro "Seis propostas para o próximo milênio", sugere seis atributos para a literatura contemporânea a fim de salvá-la da crise da linguagem que se alastra com a vida pós-moderna. No entanto, a linguagem não é matéria-prima unicamente para a bibliografia. O próprio homem é feito de linguagem, arranjado nela; e através dela ele lê o mundo e se posiciona nele.
Penso então, que falta, não somente à literatura e aos escritores, essas virtudes. A cada dia mais eu me convenço de que carece à todas as coisas e pessoas um pouco de leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência. Talvez seja até mais que uma questão de suficiência... Talvez seja necessário ao (sobre)viver.